Chuck Berry não é o pai do rock ’n’ roll

Por: Flavio Barboni

Publicação Original: medium.com/neworder/

Imagem: Globe Photos/ZUMA

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Chuck Berry é um ícone da música pop e pode colocar também em sua conta o começo da queda das barreiras físicas impostas pela segregação entre negros e brancos no sul dos EUA.

O rock foi o símbolo de uma geração que derrubou preconceitos, misturando negros e brancos nas chamadas rádios multirraciais, que tocavam músicas dos dois guetos. Comunicadores como Alan Freed (que nomeou o novo gênero de “rock ‘n’ roll”) e Wolfman Jack tocavam música boa, independente da cor de seus intérpretes. Foi pelo rock que os EUA redescobriram o talento na chamada “Black music”.

Mas Chuck Berry não pode ser chamado de “pai do rock”, ainda que vaidosamente ele sempre tenha adorado esse título. Berry deve saber que o rock não tem pai, pois é fruto de uma orgia de vários aventureiros e aventureiras com a rebeldia.

Ele resolveu assumir o filho, mesmo sabendo que o rock podia ser de Fats Domino, de Muddy Waters, Elvis Presley, Carl Perkins ou até mesmo de Robert Johnson. A rebeldia curtia se enfiar nos trigeirais com Johnny Cash, nos milharais com Son House, tomava bourbon, scotch, cerveja em Chicago e viajava para o sul da Inglaterra de vez em quando.

Essas orgias eram regadas ao country hillbilly branco, blues e soul negro e gospel de todos, afinal, era preciso se purificar depois de tanta perversão. A genética celta, anglo-saxã, escocesa estava tão presente quanto a matriz africana e as canções das tribos ameríndias.

Mas se pai é “quem cria”, Chuck Berry pode sim ostentar o legado. Não “criar” no sentido criativo, mas como um tutor que cuida com empenho de seu enteado. E como bem disse o lendário guitarrista dos Rolling Stones, educa desde Pete Townsend até Kurt Cobain, sem esquecer do punk rock, influência que o próprio Berry chegou a reconhecer.

Enquanto Elvis Presley já embalava o mundo com seu rebolado em “That’s Alright Mama” desde 1954, Chuck só lançou “Maybelline” – seu primeiro single – em 1955. Só que o “Rei do Rock”, centrado em voz e performance, tinha muito mais a ensinar à Lady Gaga do que ao Eric Clapton. Chuck Berry sobe ao palco sempre agarrado à sua Gibson ES 355S e faz pessoas como Jimi Hendrix descobrirem que incendiar platéias ao som de uma guitarra é um dos maiores prazeres humanos.

É essa relação homem-guitarra que fez o rock ‘n’ roll se expandir como o ritmo mais popular do mundo. Em qualquer lugar do mundo há alguma banda destilando veneno, frustrações e sonhos nas cordas de uma guitarra. E isso é o feito de Chuck Berry, que não é o pai do rock, nem o fundador, mas sim o professor, o mestre.

Deixa o mundo, mas não nossos corações e mentes. Sempre devemos falar dele no presente, pois lendas nunca morrem, se perpetuam!

Categoria:Histórias do Rock

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